Mostrando postagens com marcador adolescente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador adolescente. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sofrer é bom?

Experimenta dizer pra uma amiga sua que você está péssima, que tudo deu errado e que anda precisando de um ombro. Aposto ela vai sentar e chorar as pitangas com você. Se o seu problema for um ex, capaz até de ela começar a contar do último namorado dela, como se quisesse convencer você de que podia ser pior. Por outro lado, se disser à sua amiga – qualquer uma delas – que está feliz, radiante, que gosta da sua vida exatamente como ela é, pode ser que ela estranhe e ache que você anda meio maluca. Isso porque, infelizmente, quem vive na boa e deixa isso transparecer, hoje em dia, é uma minoria. Duvida? Faça o sacrifício de assistir a um telejornal inteirinho. Entre dezenas de histórias pra lá de trágicas, de assassinatos, roubos, mortes, furacões e tempestades, talvez sobre uma ou duas de gente que fez coisas legais ou que se deu bem. Dizem que o sofrimento dá mais ibope. E não é que é verdade? Pensa bem: você olha com o mesmo interesse para uma batida daquelas no trânsito e para uma borboleta que, do nada, resolve pousar no vidro do seu carro? Pois é. O problema é que, de tanto olhar sofrimento, catástrofes, violência, periga a gente esquecer que a vida também é feita de poesia.

E mais: de tanto cultivar a dor, ela acaba meio que perdendo o sentido. Tipo: a gente chora vendo as vítimas de um tal desastre natural na TV. Mas não se emociona quando passa perto de um mendigo, que vive na esquina da nossa casa. Faz sentido isso?

O sentimento de compaixão, que nos faz dizer “nossa, coitado do fulano”, não é de todo ruim. A gente só sente dó dos outros porque consegue se imaginar no lugar deles. O que eu acho chato nessa lamentação toda é o que vem depois. E o que vem depois? Nada! Parece papo de doido? Eu explico: na maioria das vezes, apesar de chorarmos lágrimas de crocodilo pelo sofrimento dos outros, quase nunca transformamos isso em algo produtivo, não pensamos em maneiras de aliviar aquela dor do outro. Sentimos pena. E só.

Até quando a dor é nossa, a gente faz de tudo pra fugir, demora horrores pra termos coragem de enfrentar o problema que está nos fazendo ficar cada dia pior. Tenho um exemplo bom: o do fora. Quem nunca levou uma dispensada e, no dia seguinte, passou horas trancada no quarto, ouvindo música lenta e lembrando as últimas palavras do pretê? É como se fosse uma tortura que aplicamos a nós mesmas!

Agora, imagine se a gente pudesse fazer diferente – e a gente pode! Então, quando uma amiga viesse reclamar da vida, tentaríamos animá-la, em vez de contar casos ainda mais dramáticos. Ao ver que alguém – qualquer pessoa – está em sofrimento, faríamos o possível para ajudá-la, mesmo que a nossa contribuição seja minúscula (em muitos casos, um sorriso ou um abraço salvam o dia de quem acordou achando que a vida não fazia mais sentido). Ah, e quando a dor fosse nossa, o primeiro desafio seria descobrir onde foi que nos machucaram, para resolver de imediato a questão.

Logo, se sofrer é inevitável, aliviar a dor – a nossa e a dos outros - é sempre a melhor saída. Então, que tal tentar fazer isso mais vezes?

domingo, 31 de agosto de 2008

Deixe o seu recado!

Outro dia, assisti a um filme lindo e bem antigo, chamado O Balão Vermelho, do diretor Albert Lamorisse. Ele conta a história de um garoto, o Pascal, um tipo bem solitário que encontra uma bexiga amarrada num poste de iluminação. Depois de “libertá-la”, o menino começa a levá-la a todos os lugares aonde vai, pelas ruas de Paris. Os professores do colégio acham aquilo esquisitíssimo, assim como os parentes do menino. E todo mundo tenta, mas a verdade é que ninguém consegue separar os dois! Quer dizer, isso até que os “amigos” do bairro, com inveja do garoto, armam a maior cilada e conseguem finalmente acabar com a brincadeira do Pascal, furando o balão. Enquanto o menino chora, várias outras bexigas coloridas se aproximam dele, vindo de todos os pontos da cidade. Juntando todas com as mãos, o menino sobe, sobe e começa a voar sob a cidade.

Eu penso que, em alguns momentos da vida, todo mundo arranja um balão vermelho pra carregar. Pode ser um garoto de quem se está a fim, o sonho de fazer uma grande viagem ou de virar uma daquelas garotas superpopulares da escola. A gente leva essa idéia pra lá e pra cá, não pára de pensar naquilo nem por um minuto.

Mas basta a vida vir com um alfinete inesperado para estragar nossos planos - ou furar nosso balãozinho - e pronto: parece que o mundo vai acabar e que nunca mais teremos a menor chance de ser felizes! Só que a realidade normalmente é bem diferente. É justamente quando desencanamos daquele menino que só sabe nos faz sofrer que conseguimos ver outros garotos muito mais interessantes ao redor (e, certamente, um deles saberá nos dar o valor que merecemos!). É só desistir de ser popular e criar coragem de ser autêntica e os amigos começam a surgir, como que por encanto, sem que a gente precise fazer nada de muito especial. E por aí vai.

É que enquanto a gente coloca toda a nossa expectativa em cima de um único desejo – que às vezes demooora para virar realidade - acabamos nos esquecendo de curtir as outras coisas boas que a vida tem. Por isso, da próxima vez que estiver triste por causa de um namoro que não deu certo, pense na turma do colégio, nas baladas, nas viagens, nos momentos mais legais que já passou com seus pais, no jeans novinho que ainda nem estreou. Se ficou passada por causa de uma amiga que pisou na bola, lembre do menino lindo que olhou pra você de um jeito diferente ontem, daquele filme que você adora (e que já assistiu trocentas vezes), da torta de creme (ou de limão ou de maçã) que a sua avó faz, das outras muitas amigas que continuam ao seu lado, companheiras e leais.

Junte todas as coisas bonitas e deixe que elas façam você voar acima dos desafios que estiver enfrentando. É assim que a gente se torna maior que os nossos problemas.

Texto publicado na Revista Atrevida do mês de setembro, edição 169.